Elaine Fiúza: da calçada do Arraial do Retiro à formação de uma nova geração de nail designers na Bahia
Elaine Fiúza tinha 17 anos quando conheceu o homem que mudaria o rumo da sua vida — não pelo casamento que viria depois, mas por um conselho simples, quase despretensioso, que ele lhe deu ainda no início da relação. Ela sempre achou bonito ver as mulheres com as unhas pintadas e queria aprender aquele ofício. Foi ele quem a incentivou a ir atrás. No bairro do Nordeste de Amaralina, onde ele morava, havia um curso gratuito de manicure oferecido numa igreja católica da comunidade. Elaine se inscreveu, aprendeu as primeiras técnicas e começou a colocar em prática nas unhas das cunhadas, da mãe e da patroa da mãe. Era 1996, e naquele momento aquilo era só um curso entre tantos que a vida oferece. Ela não fazia ideia de que, décadas depois, aquele gesto de incentivo seria a base sobre a qual reconstruiria tudo.
Aos 30 anos, Elaine ficou viúva. De repente, era ela sozinha com uma filha de apenas 10 anos e a urgência de uma renda que não podia esperar. Foi nesse momento que a manicure — aquele ofício aprendido de graça numa igreja, anos antes, por incentivo do marido — deixou de ser apenas uma habilidade e se tornou sustento, direção, chão firme. “As unhas salvaram a minha vida”, ela costuma dizer, e há um peso real por trás dessa frase: não é força de expressão, é a descrição exata do que aconteceu.
Ela recomeçou do zero, literalmente numa calçada, no bairro do Arraial do Retiro. Os materiais eram poucos e sem a qualidade que ela gostaria de oferecer, mas o sonho era maior que a estrutura: vencer, criar a filha, transformar a própria vida e, mais adiante, a vida de outras mulheres. Foi ali, naquela calçada, que uma pessoa chamada Maria se tornou parte fundamental dessa história. Enquanto Elaine reconstruía sua rotina profissional com o que tinha em mãos, Maria a acolhia de um jeito que ia muito além da vizinhança: deixava que ela usasse o banheiro de sua casa e, mais de uma vez, dividiu um prato de comida com ela. Elaine faz questão de que esse gesto fique registrado — porque sabe que histórias de superação raramente se constroem sozinhas, e porque a generosidade de Maria naquele momento específico foi parte do que a sustentou.
Do curso gratuito na igreja até hoje, Elaine se especializou e ampliou o próprio ofício. Hoje atende com a tradicional unha de mão e pé, oferece spa dos pés — um dos serviços mais procurados — e domina técnicas como alongamento em gel, tip, fibra de vidro e molde F1. Também ministra cursos, viajando pela Bahia inteira para formar novas profissionais, com formações para iniciantes, nível intermediário em alongamento e capacitação para instrutores. Faz questão de manter o acompanhamento com as alunas mesmo depois que o curso termina — um cuidado que reflete a própria forma como ela entende essa profissão: não é sobre ensinar uma técnica e seguir em frente, é sobre acompanhar uma trajetória.
Para Elaine, o trabalho com unhas sempre foi maior do que a técnica em si. É por meio dele que ela busca mostrar a outras mulheres — muitas delas em situação de vulnerabilidade social, sem acesso ao emprego formal — que existe um caminho possível para a independência financeira. É uma forma de dizer, na prática, que dá para recomeçar, porque ela recomeçou. E essa crença se reflete também na relação que constrói com quem senta na sua cadeira: ao longo dos anos, muitas clientes se tornaram amigas, confidentes, pessoas que acompanham de perto sua trajetória. O momento da unha, para ela, é também um momento de conversa, de troca, de acolhimento. Há clientes que a acompanham há anos, que passaram por diferentes fases da vida sentadas ali, e que se tornaram parte da sua própria história.
E há um tipo de emoção particular que ela guarda para quando uma cliente se identifica tanto com o trabalho que decide aprender com ela — e Elaine observa, de perto, essa mulher crescer, conquistar espaço e, muitas vezes, transformar a própria vida através da profissão. “Não construí apenas uma carteira de clientes”, ela diz. “Construí relações, histórias e uma comunidade de mulheres que fazem parte da minha caminhada.”
Hoje, olhando para trás, Elaine se descreve como uma pessoa orgulhosa — orgulhosa da própria história, de não ter desistido, de ter seguido o direcionamento que o marido lhe deu ainda tão jovem. Ela acredita que, de onde ele estiver, ele viu tudo o que ensinou se transformar em prática. Tem orgulho de ter criado a filha sozinha — hoje quase formada em Educação Física — e da mulher em que se tornou ao longo desse processo, por dentro e por fora.
À mulher que sonha em viver da beleza, Elaine deixa um recado que nasce direto da própria experiência: acredite no seu potencial e comece, mesmo sem se sentir pronta. Ela também partiu de um lugar muito diferente de onde está hoje — foram muitos desafios, erros, aprendizados e recomeços. O que fez diferença não foi apenas aprender uma técnica, mas entender que era preciso se profissionalizar, buscar conhecimento, valorizar o próprio trabalho e se enxergar como profissional, não apenas como alguém que faz unhas. “Não tenha medo de começar pequeno”, diz ela. “Tenha medo de passar a vida inteira imaginando onde poderia ter chegado se tivesse começado.”
Elaine Fiúza atende e ministra cursos em Salvador e por toda a Bahia. Para conhecer seu trabalho, acompanhe @elainefiuzaacademy.

